IOF nas Criptos
o Tiro Final no Peito das Corretoras Nacionais
O governo brasileiro achou um jeito criativo de piorar o que já era ruim: preparar a cobrança de IOF sobre operações com criptomoedas dentro das corretoras.
E a parte mais irônica disso tudo é simples:
quem bancou o lobby pra esse cenário existir foram justamente as corretoras nacionais.
Foram anos de “regulação responsável”, “segurança jurídica”, “vamos sentar à mesa com o regulador”. Agora o resultado bateu na porta: todo cliente dessas mesmas corretoras corre o risco de pagar IOF em praticamente qualquer movimentação de cripto.
Quando eu escrevi no X:
“O último tiro no peito das corretoras nacionais…
Isso é POÉTICO! Elas que BANCARAM o LOBBY pra isso acontecer.
Agora todo cliente delas vai pagar IOF sobre todo e qualquer saque.”
não era figura de linguagem.
É só seguir a linha do tempo.
Como o terreno foi preparado
O ponto-chave dessa história é a Resolução 521/2025 do Banco Central.
Ela fez uma coisa bem específica: puxou quatro tipos de operação com cripto para dentro do mercado de câmbio, o mesmo ambiente onde vivem dólar, euro, remessa internacional e… IOF.
Isso é exatamente o que o perfil Declarando Bitcoin resumiu:
“A regulamentação do Banco Central deixou o terreno pronto para a cobrança do IOF em criptomoedas, e as notícias mostram que o governo já está se movimentando.”
Ou seja: o BC ajeitou o tabuleiro técnico.
Agora o Ministério da Fazenda chega mexendo as peças políticas: um ato normativo que cria IOF em cripto, com alíquota ainda “em definição”.
Tradução: o mecanismo já existe – a dúvida é só quão forte vai ser a mordida.
Quais operações estão na mira, na prática
A própria Resolução 521/2025 lista as quatro operações de cripto que agora são tratadas como operações de câmbio. São justamente elas que podem virar alvo direto do IOF:
Pagamento e transferências internacionais com cripto.
Aqui entra o cara que manda BTC ou stablecoin pra fora pra pagar alguém, fazer remessa, honrar contrato lá fora, enviar dinheiro pra família, etc.
O recado é: se a cripto estiver sendo usada como meio de envio de valor entre países, o governo quer colocar pedágio.Transferências ligadas ao uso internacional de cartões de cripto.
Sabe aqueles cartões que você carrega com cripto e usa pra pagar em dólar/euro no exterior? Pois é.
A parte “internacional” dessas operações foi puxada pro guarda-chuva de câmbio. Ou seja, tem tudo pra virar terreno fértil de IOF também.Transferências entre exchanges e carteiras próprias (autocustódia).
Esse é o ponto mais bizarro e perigoso.
A simples ação de sacar da corretora para sua própria carteira entrou no radar da regulamentação.
Se isso for enquadrado como operação de câmbio (como a resolução sugere), o Estado ganha justificativa pra cobrar IOF enquanto você apenas tira o seu próprio dinheiro da coleira.Compra, venda ou troca de criptoativos atrelados a moedas fiduciárias (stablecoins).
Stablecoin sempre foi o playground perfeito pro regulador: parece dólar, se comporta como dólar, só não chama dólar.
Agora, ao puxar esse tipo de operação pro mundo do câmbio, o governo abre caminho pra tributar o cara que:compra USDT/USDC com real,
troca stablecoin por outra moeda,
ou converte de volta pra moeda fiduciária.
Repara no padrão: não é só “especulação com Bitcoin”.
É praticamente tudo que conecta cripto com o sistema financeiro tradicional ou com o resto do mundo.
É o uso real das criptos — remessa, saque, cartão, stablecoin — sendo jogado num campo onde o Estado já domina a tecnologia de controle e de tributação.
IOF: o pedágio padrão do sistema financeiro
O IOF é o imposto favorito de quem governa porque ele é rápido, silencioso e pega exatamente onde dói:
qualquer fluxo que passa por câmbio, crédito, seguros, investimentos.
No momento em que o BC diz:
“essas quatro operações com cripto agora são câmbio”
ele está basicamente entregando um bilhete dourado pro Ministério da Fazenda:
“Podem meter IOF aqui quando quiserem, é só baixar um ato normativo.”
E é exatamente isso que a manchete recente está sinalizando:
o Ministério da Fazenda está preparando a cobrança de IOF em criptomoedas via ato infralegal, ou seja, sem precisar passar por um debate sério no Congresso.
Não é que “um dia talvez aconteça” – o movimento já começou.
Por que isso é um tiro no peito das corretoras
O modelo de negócio das exchanges nacionais sempre foi vender conforto e “respeitabilidade”:
“Deixa aqui, é prático.”
“Aqui é seguro, é regulado.”
“Estamos em linha com o Banco Central, com a Receita, com o Coaf, tá tudo certinho.”
Só que, quando o ambiente regulado vira ponto oficial de cobrança de IOF, essa narrativa começa a implodir:
O cliente passa a associar corretora com mais custo e menos liberdade.
A ponte para autocustódia (já cercada de KYC e relatórios) pode ganhar mais um espinho: imposto na saída.
Cartões de cripto e operações com stablecoin, que eram vendidos como “facilidade”, entram na vitrine do Fisco.
As corretoras apostaram que, abraçando o regulador, iam matar o P2P e concentrar liquidez.
Na prática, estão virando apêndice arrecadatório do Estado – e levando o cliente junto pro abate.
Isso é o “poético” da situação:
foram elas que pediram essa dança.
O Estado não odeia cripto. Ele odeia cripto LIVRE.
O problema do governo nunca foi “Bitcoin é complexo” ou “blockchain é inovação demais”.
O problema é simples: fluxo de valor fora do alcance do Estado.
Bitcoin em carteira própria, multisig, coin control, P2P: isso é caos pro Leviatã.
Bitcoin em corretora nacional, com selfie, comprovante de endereço, relatório automático e agora potencial IOF: isso é sonho molhado de burocrata.
Por isso o roteiro é sempre igual:
Prometem “regulação boa” e “segurança jurídica”.
Obrigam tudo a passar por intermediários licenciados.
Enchem de obrigações de reporte, KYC, monitoramento.
E, lá na frente, vem a cereja do bolo: tributo específico sobre aquele setor.
Cripto está exatamente na fase 4.
Quem paga a conta no fim? O cliente obediente
Quem fez tudo “certinho” no CPF BR:
só usou corretora nacional,
confiou em custodiante “regulado”,
mandou stablecoin por cartão ou remessa cripto,
tende a ser o alvo mais fácil.
Já quem:
aprendeu autocustódia de verdade,
diversificou canais de compra e venda,
pensou em jurisdição (documentos, residência fiscal, exposição ao sistema brasileiro),
vai ter mais margem pra se defender, mesmo num ambiente cada vez mais hostil.
Não existe blindagem perfeita, mas existe diferença de grau.
Quem concentra tudo sob a pata do Estado brasileiro está escolhendo voluntariamente o modo hard.
A farsa da “regulação boa”
Sempre que alguém do mercado financeiro fala em “boa regulação para cripto”, leia assim:
“Precisamos colocar isso em um cercadinho onde o Estado cobra pedágio e vigia cada movimento.”
Você não chama fiscal pra dentro da sua casa achando que ele só vai elogiar o sofá.
Você não chama Banco Central e Receita Federal pra “organizar o mercado” esperando que eles parem antes de meter imposto.
O IOF nas criptos não é exagero, não é “passaram do ponto”.
É simplesmente o próximo passo lógico de um processo que começou quando as corretoras decidiram se ajoelhar diante do regulador em troca de um selo de “risco baixo”.
Pra onde ir daqui pra frente
Esse texto não é um convite ao pânico, é um convite à lucidez.
Algumas coisas ficam cada vez mais óbvias:
Corretora é ponte, não é estacionamento.
Autocustódia é obrigação básica, não feature de nerd paranoico.
Stablecoin não é fuga mágica, principalmente quando passa por banco, cartão ou corretora “certinha”.
Jurisdição importa: ter tudo em CPF BR, banco BR, corretora BR e residência fiscal BR é escolher jogar no tabuleiro favorito do Estado mais faminto da história do país.
Bitcoin nasceu pra ser dinheiro soberano, que não precisa pedir bênção de ninguém.
Transformar isso em token bancário com IOF é quase uma piada de mau gosto – mas é exatamente o que acontece quando você terceiriza sua liberdade financeira em nome de conveniência.
Se você não quer virar só mais uma linha numa planilha de IOF sobre criptos, o recado é direto:
pare de tratar a corretora como casa;
trate como fronteira;
Da fronteira pra fora, a responsabilidade é sua.
E responsabilidade, nesse contexto, é só outro nome pra aquilo que o sistema tenta te negar o tempo todo: liberdade.

